Política

Um dia após propina delatada pela JBS, Temer comprou dois terrenos em condomínio de luxo

| 10/10/2017 - 21:10

Um dia após propina delatada pela JBS, Temer comprou dois terrenos em condomínio de luxo

Um dia depois que a JBS diz ter entregue um volume de dinheiro destinado ao presidente Michel Temer, o então vice-presidente concluiu a compra de dois terrenos que somam 4.700 metros quadrados em um condomínio de luxo em Itu, no interior de São Paulo. A área fica no condomínio Terras de São José II, que possui 20 quadras de tênis, dois campos de futebol, academia de golfe, centro hípico e heliporto.
Seria só uma compra típica de um milionário, mas o momento da aquisição chama a atenção pela coincidência de datas. Temer foi, de acordo com depoimentos de delatores à Operação Lava Jato, o destinatário de cerca de 2 milhões de reais em pagamentos de propina da Odebrecht e da JBS entre o fim de agosto e o começo de setembro de 2014. No dia 2 de setembro de 2014, a JBS diz ter entregue 1 milhão de reais em espécie ao coronel João Baptista Lima Filho, amigo do presidente e considerado o mais antigo operador de propinas de Temer pela Lava Jato. De acordo com depoimentos e documentos dos delatores do frigorífico, esse pagamento era destinado a Temer e fazia parte de um acerto de R$ 15 milhões para o presidente. O caminho da suposta propina ainda é investigado.
Um dia depois da entrega de dinheiro relatada pela JBS, em 3 de setembro daquele ano, a Tabapuã Investimentos e Participações, uma empresa criada e controlada por Temer, concluiu em cartório a aquisição, por R$ 334 mil, do lote 11, da quadra 24, do condomínio Terras de São José II. Só essa propriedade imobiliária ocupa 2.604 metros quadrados. Temer também usou a Tabapuã para concluir a compra do lote 12, da quadra 24, do mesmo condomínio, com área equivalente a 2.092 metros quadrados, por R$ 380 mil. Ao contrário da prática comum em escrituras do gênero, não foram discriminados nos registros como foram feitos os pagamentos pelos imóveis.
Um milhão de reais ao ano com aluguel
As propriedades no condomínio de luxo em Itu são as últimas joias do portentoso conjunto imobiliário de Temer. Ele possui 20 imóveis, alguns herdados da família. Duas salas comerciais e a casa onde mora em São Paulo foram transferidos para o filho Michelzinho, mas Temer continua usufrutuário até que o herdeiro complete 30 anos. Esse patrimônio passou a chamar atenção dos investigadores depois que o doleiro Lúcio Funaro, considerado operador de propinas do PMDB, afirmou em acordo de delação premiada que Temer adquiriu imóveis para lavar dinheiro e esconder a origem ilícita de repasses de propina. Funaro chegou a afirmar que Temer tinha o andar inteiro de um prédio comercial na Avenida Faria Lima, o endereço mais caro para propriedades comerciais na capital paulista.
O EL PAÍS apurou que Temer é dono de um andar inteiro no edifício Spazio Faria Lima, que rende pouco mais de 1 milhão de reais de aluguel ao ano para o presidente. O andar foi vendido pela incorporadora Yuny, uma empresa controlada pela família do advogado José Yunes, velho amigo de Temer, ex-assessor especial dele no Palácio do Planalto e também considerado um operador de propinas para o presidente pela Lava Jato. Embora a escritura do imóvel não especifique a forma de pagamento de Temer, o presidente também diz que pagou com recursos próprios em 2003.
O andar inteiro na Faria Lima não foi a única transação entre Temer e Yunes. O presidente comprou do advogado duas salas comerciais na Rua Tabapuã, no Itaim Bibi, Zona Sul de São Paulo, onde fica seu escritório atualmente. Documentos cartoriais atestam que Temer pagou ao amigo R$ 190 mil por cada sala em 2000. Temer também pagou 830 mil reais a Yunes em 2011 por um imóvel no Alto de Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, segundo informaram os dois em cartório.
As transações de Temer com Yunes levantaram suspeitas porque, de acordo com depoimento de um executivo da Odebrecht, o amigo do presidente recebeu para Temer uma entrega de um milhão em espécie do departamento de propinas da construtora em uma data não especificada entre o fim de agosto e o começo de setembro de 2014. Yunes disse ao Ministério Público que apenas recebeu um “pacote” a pedido do ministro-chefe da Casa Civil e também aliado de Temer, Eliseu Padilha. Funaro corroborou a versão do executivo da Odebrecht e disse em acordo de delação premiada que pegou esse “pacote” com 1 milhão de reais no escritório de Yunes e que soube pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima, outro aliado de Temer, que o dinheiro saiu da Odebrecht. O destino final desse repasse ainda é investigado.
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