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Aos bons, o ostracismo

| 04/08/2017 - 22:00

Por que será que a maioria dos políticos de bom comportamento, ética, com ficha limpa e respeitada por seus eleitores, quase nunca são lembrados ou indicados por seus respectivos partidos para ocupar cargos no governo? Não raro, deputados e senadores de boa índole moral são sempre alijados na hora de se apontar nomes para ocupar funções de relevância no governo ou dentro da própria legenda. E mais: quando votam com os eleitores e cumprem o preâmbulo da Carta Magna, a primeira providência do partido é a expulsão.
Por alguma razão misteriosa ficam no mais absoluto ostracismo, empurrados para o canto da sala, nem sequer participam das reuniões internas, exercendo o mandato numa espécie de gueto, distante do que chamam “grandes discussões”. A primeira explicação que aparece para clarear esse fenômeno talvez seja a sabedoria do filósofo de Mondubim: “Não se convocam ovelhas para a convenção de lobos”.
Por certo que esse dilema deixa à vista um comportamento que, com o tempo, se tornou padrão na maioria dos partidos. Pessoas absolutamente probas não brilham entre seus pares políticos, embora com eles convivam até de forma amigável. Os nomes e as situações em que esses fatos se verificam são numerosos e se repetem com certa monotonia desde o Brasil Império.
Qualquer pesquisa mostra que esse comportamento, além de comum, tem lógica dentro das primícias políticas que ganharam campo entre nós. Como ensinava Maquiavel: “Quero ir para o inferno, não para o céu. No inferno, gozarei da companhia de papas, reis e príncipes. No céu, só terei por companhias mendigos, monges, eremitas e apóstolos”.
A refinada ciência política, tão importante para as relações humanas e para a construção de uma sociedade justa, se degenerou a ponto de se transformar na arte do malabarismo e da prestidigitação malandra. Talvez, por esse motivo, vemos com frequência o desfile dos mesmos e indecifráveis rostos. Entra e sai governo e eles lá estão, com a mesma gravata da sorte e a pastinha sob os braços, repleta de pedidos inconfessáveis e dossiês comprometedores. Nem mesmo mestres do pensamento, como Norberto Bobbio, tinham explicação para o fenômeno que aflige também outros lugares do mundo. “Quando sinto ter chegado ao fim da vida, disse, sem ter encontrado uma resposta às perguntas últimas, a minha inteligência fica humilhada, e eu aceito esta humilhação, aceito-a e não procuro fugir desta humilhação com a fé, por meio de caminhos que não consigo percorrer. Continuo a ser homem, com minha razão limitada e humilhada: sei que não sei”.
Talvez uma explicação para este comportamento político entre nós esteja no fato de que 62% dos deputados na atual legislatura e 73% dos senadores possuem laços sanguíneos com outros políticos.
colunadoaricunha@gmail.com
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