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Os que apodrecem

| 09/05/2017 - 21:00

Quanto mal o governo-9%-de-aprovação-Temer ainda pode fazer?
As flechas empunhadas pelos indígenas que ocuparam Brasília na semana passada podem indicar. É contra os mais vulneráveis, os que ninguém liga, os grandes outros do Brasil que as mãos corrompidas avançam sem a necessidade de disfarçar sequer no discurso. É desta aldeia chamada Funai que vem se arrancando peça por peça e talvez em breve o dia amanheça e já não existam sequer cadeiras. É ali que o pior de ontem é melhor do que o pior de hoje. E no amanhã a frase “nenhum direito a menos” pode deixar de fazer qualquer sentido porque já se foram todos. É com os índios que acontece primeiro. Desde 1500, como se sabe. Mas, não custa lembrar: “Índio é nós”.
Na quinta-feira (27/4), o presidente da Fundação Nacional do Índio, Antônio Fernandes Toninho Costa, passou mal quando negociava com lideranças indígenas acampadas na Esplanada dos Ministérios. Uma queda de pressão, sua assessoria diria. Ele encarna por esses dias o drama tão bem expressado na frase antológica do escritor Luis Fernando Verissimo: “No Brasil, o fundo do poço é apenas uma etapa”. Antônio Costa é uma etapa, ele mesmo descobriu.
Antes dele, o governo-9%-de-aprovação-Temer tentou colocar um general para presidir a Funai. A informação vazou e houve reação. Afinal, a ditadura comandada pelos militares no Brasil, com o apoio de setores da sociedade civil, exterminou centenas de indígenas. O governo-9%-de-aprovação-Temer recuou do general, mas não recuou da decisão de entregar a Funai para o Partido Social Cristão (PSC). Assim, tipo um agrado para o partido da sua base aliada: “Pega aí a Funai pra vocês”.
O PSC notabiliza-se pela qualidade de seus expoentes: do pastor Marco Feliciano, aquele que diz que os “africanos descendem de ancestral amaldiçoado de Noé”, ao militar da reserva Jair Bolsonaro, que defende torturadores e se orgulha disso. Dono da Funai, o PSC, este partido que merece um estudo mais aprofundado, colocou Antônio Costa na presidência. Não mais um general, mas um pastor evangélico para cuidar das questões indígenas.
Antônio Costa, dentista e pastor da Primeira Igreja Batista do Guará, costuma ser um homem educado. Quando se despede dos indígenas, ele diz “fiquem com Deus”. Alguns povos indígenas poderiam perguntar a qual deus ele se refere, mas há questões mais urgentes. Mas, se Antônio Costa é um homem educado, seu olhar sobre os povos indígenas parece não ter sido abalado pela Constituição de 1988. Ele expressou suas ideias com sincera devoção na entrevista que deu ao repórter João Fellet, da BBC Brasil, no início de abril. Para ele, os indígenas devem ser inseridos no “sistema produtivo” e a mineração em suas terras ancestrais regulamentadas o mais rápido possível.
A Funai é desmontada para acelerar o processo de desproteger as terras indígenas já protegidas e jamais proteger as que ainda precisam ser protegidas
Seu chefe, o ruralista e ministro da Justiça Osmar Serraglio (PMDB), nomeado pelo governo-9%-de-aprovação-Temer, havia dito dias antes que era preciso parar com essa discussão sobre demarcação de terras indígenas porque “terra não enche barriga de ninguém”. Para acelerar o processo de desproteger as terras indígenas já protegidas e jamais proteger as que ainda precisam ser protegidas, o ministro-da-justiça-para-mim-e-meus-amigos-ruralistas extinguiu 347 cargos comissionados da Funai, que naquele momento mal conseguia trabalhar por falta de pessoal. E, por mais críticas que se possa fazer à atuação da Funai em diferentes fases, a violência contra os indígenas se multiplica onde ela não está. Sem a Funai, é ainda mais fácil avançar sobre as ricas terras indígenas e arrebentar com a cultura dos mais de 250 povos originários, assim como com a floresta e outros ecossistemas, já que são os indígenas os principais protetores do meio ambiente.
As ideias de Antônio Costa, expostas de forma tão cristalina, chocaram aqueles que defendem o direito de os povos indígenas existirem e determinarem seu destino. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, afirmou no Twitter sobre o conteúdo da entrevista: “Os imbecis não param de emergir da fossa séptica que é esse governo. Os coronéis da ditadura que dominavam a Funai nos anos 70 não diriam melhor”.
Mas os dias são assim no Brasil do governo-9%-de-aprovação-Temer. O horror de ontem é uma etapa intermediária, jamais o fundo do poço. Não é nem que sempre pode piorar, como diz o clichê. É que sempre piora. Tanto que, dias atrás, um grupo de indígenas interrompeu a BR-163 por seis horas, em Ma to Grosso do Sul. Uma das reivindicações era a permanência de Antônio Costa na presidência da Funai. Estavam os indígenas loucos?
Os indígenas descobriram que no Brasil de Temer o que já é ruim sempre piora no dia seguinte
Não. Eles apenas já tinham descoberto o Brasil do governo-9%-de-aprovação-Temer. O que tinha se passado era o seguinte. Não bastava ter um presidente da Funai pastor evangélico, não bastava ter um presidente da Funai defendendo que os indígenas precisam ser inseridos “na cadeia produtiva”, não bastava ter um presidente da Funai apostando na liberação das terras indígenas para a mineração. Não. Para o ministro-da-justiça-para-mim-e-meus-amigos-ruralistas e para os caciques brancos do PSC, Antônio Costa era progressista demais.
Percebam o quanto Antônio Costa era “esquerdista”: ele se recusou a nomear afilhados políticos para cargos técnicos da Funai. Afirmou à imprensa que, por essa recusa, seria demitido e estava “aguardando a exoneração ser publicada”: “As coordenações regionais trabalham diretamente com a comunidade indígena, e eles (indígenas) não aceitam políticos. Eles (integrantes do partido) queriam colocar pessoas que nunca trabalharam com o tema”. Antônio Costa botou uma barreira de princípio, apenas uma, mas qualquer princípio, por mais elementar que seja, é inaceitável no governo-9%-de-aprovação-8-ministros-investigados-pela-Lava-Jato-Temer. Qualquer princípio é um ato de insubordinação passível de demissão. Afinal, como alguém ousa ter princípios no governo-9%-de-aprovação-8-ministros-investigados-pela-Lava-Jato-Temer?
Eliane Brum
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