Entrevistas para a História

Ailor Dalla Costa

| 13/12/2014 - 00:01

Ailor Dalla Costa

Ailor Dalla Costa, filho de Ângelo Dalla Costa, toledano de nascimento, tem 57 anos. Trabalhou mais de 40 ano na aviação, onde foi paraquedista militar e dedicou toda a sua vida profissional para a aviação. Em entrevista concedida em 2009, ele fala um pouco desta trajetória.
P: Quando o senhor saiu de Toledo, foi para onde e por quê?
R: Eu saí de Toledo em 1968, com destino ao Rio de Janeiro, por falta de condições, por falta de alternativas de vida, por falta de trabalho, por falta de escolas profissionalizantes e com isso tomei o rumo do Rio de Janeiro, com a intenção de integrar a Marinha. Acabei na brigada paraquedista e com isso acabei gostando da aviação. Fui para a Varig e dediquei o resto da minha vida à aviação, tanto comercial como militar, uma das grandes paixões da minha vida.
P: Como sabemos, a Varig, companhia a qual o senhor fez parte, foi dilapidada e acabou tendo que dispensar todos seus funcionários e sendo absorvida por outra companhia pública. Como se deu isso e como o senhor sentiu essa derrocada?
R: Eu tive uma escalada profissional muito interessante dentro da Varig, chegando a ser um alto funcionário da empresa, participando do alto escalão, opinando e aconselhando quando da aquisição de novas aeronaves. Fui membro do colegiado da Varig e participei da negociação direta da empresa, da negociação com o governo Lula, e confesso que fiquei completamente decepcionado com o nosso presidente da República, da situação que ele deixou chegar, uma empresa com 82 anos de existência, sólida, com mais de R$ 7 bilhões a receber do governo federal. Se fossem pagos R$ 3 bilhões seriam sanados os problemas financeiros da empresa. Mesmo assim, para beneficiar a TAM e a GOL, preferiu sacrificar uma empresa sólida e conhecida internacionalmente.
P: Você é remanescente da aviação, hoje aposentado. Foi uma boa experiência?
R: O maior presente que ganhei em minha vida foi poder trabalhar na aviação e conhecer o mundo todo. Tive o prazer e a graça de morar em cinco continentes, evidente, pela empresa que eu trabalhava, onde conheci muitas outras maneiras de vida, isto não tem dinheiro que pague esta experiência.
P: O senhor se especializou em resgates de acidentes aéreos. Certa feita, por ocasião da queda do voo da GOL na selva amazônica, destes uma entrevista em rede nacional relatando sobre as buscas. Como se deu isso?
R: Eu era o responsável aqui na América do Sul por uma equipe de resgate especializado em acidentes aéreos, formado por um combo de diversos países. Participei em todos os resgates dos grandes acidentes ocorridos aqui no Brasil de 30 anos para cá, e nesse caso específico, tive o prazer e o desprazer de fazer parte do resgate deste acidente na localidade de Cachimbo em que faleceram 154 pessoas. E lá mesmo, no jornal, me perguntaram de onde eu era e de lá enalteci que era de Toledo, no Paraná, fazendo questão de mencionar o nome da minha cidade a qual tenho muito orgulho e que sempre tento elevar por onde quer que eu esteja.
P: Qual a sensação e o preparo que se deve ter para se deparar com corpos esfacelados, como nesse caso em Cachimbo?
R: Realmente é uma situação muito difícil. Eu tenho um amigo, um comandante que sempre me pedia para levar junto, e acabei levando ele para lá, e até o questionei se ele estava preparado para enfrentar as cenas que viriam pela frente. Ele falou que sim, mas no momento em que ele viu o primeiro corpo, ou resto de um corpo, ele simplesmente desmaiou. É normal, porque é um impacto muito forte, porque por mais preparado que você esteja, te abala muito, você nunca se acostuma com a perca, com a morte. Tem dias que eu falo sobre o acidente normalmente, já outros dias eu não consigo falar sem me emocionar e por diversas vezes, no escuro do quarto, me pus a chorar pelas cenas chocantes que somos obrigados a encarar devido a nossa profissão.
P: Outro fato importante em sua vida foi ter acompanhado o ex-governador Leonel Brizola em diversos voos. Como se deu isso?
R: O Brizola se tratava no hospital da Varig, no Rio de Janeiro. Voava pela Varig e não pagava passagem, pois a empresa destinava sempre uma cota para ele. Era um privilégio tê-lo dentro dos nossos aviões e eu tive a oportunidade acompanhá-lo em duas eleições onde saíamos em comícios pelo Rio de Janeiro. Acompanhei-o nos palanques, era uma coisa maravilhosa aquilo que ele queria para o Rio de Janeiro e era o que eu também realmente pensava, então tive a oportunidade de conviver por muitas vezes com esse ser humano maravilhoso, com esse personagem da história do Brasil, um herói ao seu tempo.
P: Trabalhaste e fizeste tua carreira fora de Toledo, conheceu o mundo todo e agora, aposentado, volta a morar em Toledo. Saudade da terrinha?
R: Toledo é uma coisa maravilhosa, com pessoas maravilhosas. Sempre comentei no Rio de Janeiro que quando me aposentasse voltaria a morar em Toledo. Foi o que aconteceu, construí recentemente minha residência, pois aqui estão meus parentes, meus pais, e que eu realmente amo esta cidade. Tenho intenção de com minha experiência poder ajudar muitas pessoas, ajudar a administração pública. É que nem no seu caso, no artigo que publicaste recentemente, que li com muita atenção, sobre o aeroporto de Toledo. Você está fazendo também sua parte, assim como eu também quero fazer.
P: Já que tocaste na questão do aeroporto, o que pensas a respeito da revitalização do aeroporto de Toledo?
R: Eu lembro que em 1972 a Força Aérea Brasileira esteve fazendo levantamentos na região e eu era paraquedista e eu estive aqui e eles chegaram num consenso que um dos melhores lugares para se ter um aeroporto era aqui em Toledo. Eu até comentei com o comandante que aqui era minha cidade. Eles queriam montar aqui um Aeroporto Internacional, porque eles não se preocupavam somente no transporte de passageiros, mas pelo fato da segurança nacional, pela questão do reabastecimento dos aviões, haja vista que temos o Aeroporto de Foz do Iguaçu, que fica na fronteira, e que com qualquer mau tempo temos que pedir autorização para um país vizinho, no caso, a Argentina, para efetuarmos nossos pousos. O aeroporto de Toledo seria uma alternativa. E também não sabemos o que pode acontecer no dia de amanhã, portanto, precisamos estar prevenidos e para isto precisamos ter um aeroporto alternativo e nada melhor que aqui em Toledo, por ter ótimas condições de pouso e decolagem, fato que não acontece em Cascavel, onde os aviões pousam caranguejando, devido àquela cidade ter correntes fortes de ventos. E não conseguindo pousar em Foz do Iguaçu, não tendo esta alternativa e não tendo autorização do país vizinho, o avião terá que retornar a Curitiba. Sou altamente favorável a ideia de se investir em um aeroporto aqui em Toledo.
P: O local que possuímos hoje, teria que passar por muitas modificações para atender a aviação comercial?
R: Para cada pista, tem que ter uma espessura de concreto para o tipo de avião que vai pousar. Obviamente, o avião que vai pousar, tem que ter no mínimo para cada centímetro de concreto na pista, uma força para suportar 14 kg num voo internacional. Para um pouso de um avião 737 não precisa ter tudo isso. Precisaríamos alterar a espessura e o comprimento da pista em pelo menos mais 600 metros e um bom sistema de comunicação. Não precisa ter voos de envergadura como São Paulo, Rio e etc. Pode-se usar o modelo de Foz do Iguaçu, que é atingido seguidamente pela neblina, aqui nós praticamente não temos esse problema, então, não vejo muitas dificuldades em se deixar a nossa pista redondinha para recebermos esses voos comerciais regulares. Penso que se a nossa força política se mobilizar, poderemos em breve ter de volta aqueles voos regulares que Toledo sempre teve e que muito contribuiu para o desenvolvimento da região.
P: Que tipos de aviões poderiam operar por aqui?
R: Interessante sua pergunta. Nós temos a Sol, companhia do Solano aqui de Cascavel com bons aviões e que poderiam estar voando aqui em Toledo. Existem aviões russos, com baixo custo de voo, com ótimas condições de se operar aqui no nosso aeroporto, ooperacional deles é barato, com isso as passagens podem ser bem mais em conta, não precisaríamos toda hora nos deslocarmos para Maringá ou Foz do Iguaçu. Se eu pudesse dar uma opinião, já que o operacional desse avião é barato, iria partir cedo de Toledo com destino a Curitiba, dando tempo para qualquer conexão para o mundo, e na sequencia Campinas, São Paulo, novamente Curitiba e retornando à noite para cá. Não seria difícil arranjarmos passageiros, creio que só de Toledo preencheríamos 12 poltronas diariamente, destinando o restante para as outras cidades, seria um voo lucrativo para a empresa e beneficiaria, sem sombra nenhuma, diversas empresas de Toledo que tem necessidade de voos regulares de seus executivos para diversas partes do país, e tem que se deslocar constantemente para Foz, com alto custo de deslocamento, perda de tempo e outros prejuízos mais. Creio que essas empresas deveriam partilhar desta ideia de melhorarmos nosso aeroporto e com um pouco de vontade política ter de volta o nosso aeroporto de Toledo.
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